terça-feira, 7 de setembro de 2010

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A gente cria as palavras conforme a necessidade que temos de nomear as coisas. Uma canoa, para nós, urbanóides, é uma canoa. Mas os Ianomamis do Alto Xingu têm 12 palavras diferentes para nomear 12 tipos diferentes de canoa. Pra eles, uma canoa pode ser doze coisas diferentes. Pra nós, uma só. Uma canoa.
Ao som de violões chutando meus tímpanos enquanto fecho os olhos com força redobrada, tentando dormir, penso nisso. Tateio com os olhos a penumbra e vultos de móveis me guiam até a iluminada tela do meu computador. Ínsone.
Penso: se uma tribo indígena inventou 12 palavras para diferenciar doze tipos diferentes de canoa, que para nós são a mesma coisa, canoas, sempre iguais, boiando em águas doces e levando as pessoas para lá e para cá, é porque eles tiveram motivo pra isso. Uma necessidade inconsciente de categorizar. Estavam confusos. Quando alguém falava em canoa, o interlocutor não entendia se era uma canoa do tipo X ou do tipo Y. Aí foram lá e definiram 12 tipos de canoa. Acabou a confusão dos meios fluviais de transporte. Inteligentes, esses peles-vermelhas.
Nós, urbanóides, lingüisticamente perdidos, passamos o tempo todo classificando coisas, inventando neologismos e preenchendo vazios com significados também inventados. No entanto, o amor é só amor. Eu fico pensando... se uma canoa pode ter doze acepções diferentes, doze significados e doze motivos para criarmos uma nova palavra, por que é que a gente chama amor de amor, simplesmente amor? Gente, é uma CANOA. São pedaços de madeira curvada pregados numa armação, também de madeira, que as pessoas usam para se locomover em superfícies aquáticas. Isso é MUITO SIMPLES. E tem doze tipos diferentes de canoas, pros amigos Ianomamis. Pergunto: alguém aí se arrisca a explicar para mim o que é o amor?
Se a gente não consegue nem definir verbalmente uma coisa dessas, é porque trata-se de um assunto complicado demais. No entanto, mesmo assim, amor é só amor, para nós. Ignoramos a presença de amores X, amores do tipo Y, amores do tipo Z, e aqueles amores que são vários tipos de amores, conjugados num só. E eu sinto todo o tipo de amor. A todo momento e em todo lugar. Mas a única palavra que eu posso usar quando falo sobre isso é amor. Não sei o que escrever, quando quero falar de sentimentos tão diferentes como pedra, papel e tesoura, mas que a gente insiste em chamar de amor. Aquele sentimento que dura 15 minutos, ou 2 semanas, ou uma vida inteira (sei não, hein), tudo isso é a mesma coisa. Amor. Não concordo.
Talvez os índios também tenham 12 palavras que remetam a 12 tipos diferentes de amor. Talvez eu tenha que escrever um dicionário pessoal e nomear todos os tipos de amor que eu sinto no momento, por todas essas pessoas. Só eu vou entender o que essas palavras querem dizer, mas isso me basta. Tu nunca vais entender o que se passa na minha cabeça. E nem procuro facilitar as coisas. Ponho cada vez mais obstáculos no caminho das minhas mensagens.
Se algum dia eu te falar que sinto por ti um arrebatador CATRAFAL ou um BELERÓPIO, quiçá um TUNACALFO, finja entender e sorria. É de amor que eu estou falando.



Lucas Silveira

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“Deus limpará de seus olhos toda lágrima.” Apocalipse 7:17